Palavra da Equipe de Gestão: Covid-19 e a Crise nas Relações

Por Thiago Picanço

A pauta da semana começa com uma breve citação:

“Casais acumulam riqueza mais rápido que indivíduos. Cooperação é o nosso superpoder como espécie. Quando concordamos em cooperar totalmente com alguém … coisas maravilhosas podem acontecer. Além de criar riqueza (os meios), você pode alcançar os fins produzindo coisas que parecem, cheiram e soam como vocês que são bons cidadãos – por isso estamos aqui.” – Prof. Scott Galloway, em tradução livre.

A cooperação gera prosperidade através da especialização, que aumenta a produtividade de toda a cadeia de geração de valor. Casais são mais bem sucedidos na média porque dividem despesas e tarefas, adquirindo um ganho de escala que o indivíduo não tem. Da mesma forma, a economia mundial se beneficia das especializações de cada país, que buscam oferecer ao mundo aquilo que fazem de melhor.

Se a crise do confinamento balançou o barco de muitos casais mundo afora (já é esperado um pico de divórcios ao fim da pandemia), os relacionamentos entre as nações também não passarão ilesos: após décadas de discurso do ocidente exaltando colaboração e interdependência, a crise do COVID-19 chegou num momento da humanidade em que o principal líder mundial tem como lema colocar o seu próprio país em primeiro lugar.

Neste cenário em que os Estados Unidos abandonaram o posto de líder mundial e a Alemanha adotou uma abordagem de cada-um-por-si na luta contra o coronavírus, fica difícil inspirar a formação de novas alianças. Trump abre um vácuo diplomático enorme para a China ao brigar com seus próprios aliados e por isso que, apesar das aparências, ele é o candidato preferido de Pequim nas eleições americanas do fim do ano.

A China não tem sido tímida com relação a suas pretensões, e vem abordando os países mais fragilizados do ocidente para oferecer, entre outras coisas, ajuda financeira e tecnológica. Essa atitude tem gerado fortes reações nas principais economias: se antes o ocidente recebia de braços abertos os investimentos e a expertise chinesa em infraestrutura e telecomunicações, hoje, com atitudes comerciais agressivas e operações militares ousadas, a receptividade já não é mais a mesma.

A Reuters reportou que o sentimento mundial anti-China está na máxima desde o massacre da praça da paz celestial em 1989. O racismo online e a proliferação de teorias da conspiração estão gerando fortes reações na vida real, com o aparecimento mundo afora de casos de agressão a cidadãos chineses. Os políticos também têm a sua parcela de culpa, com muitos utilizando as redes sociais para amplificar e disseminar estigmas. A China pisou em alguns calos na sua transformação em superpotência e agora ela precisa fazer novas amizades.

A relação com a Rússia, por exemplo, está na máxima histórica e tem entrado cada vez mais em pauta: os dois países estavam do mesmo lado vencedor na segunda grande guerra e vêm sinalizando um namoro para influenciar a nova ordem mundial seja ela qual for, promovendo alternativas às democracias capitalistas ocidentais.

Na semana passada a União Européia solicitou aos países dos Bálcãs que parem de dar abertura para os avanços da Rússia e da China. Estes países têm alegado que não estão sendo ajudados o suficiente na crise, e que a China está preenchendo uma lacuna importante de ajuda humanitária. Muitos deles estão em fase de aprovação para entrar na União Européia, então é difícil saber se essa alegação é apenas uma forma de pressioná-los a acelerar o processo.

No fundo, em um mundo com balanço de poder mais distribuído, os menores querem ser cortejados pelos maiores antes de engatar um namoro (lembra uma certa guerra gelada, não?).

Em outra frente relacionada, os Estados Unidos, que já levantaram no passado a possibilidade de tentar comprar a Groenlândia (território Dinamarquês na região Ártica), anunciaram em abril 12 milhões de dólares em ajuda humanitária para o território de apenas 56 mil habitantes (equivalente a mais de 200 dólares per capita), irritando profundamente os políticos em Copenhague.

Nos parece que um novo jogo velho de poder está só começando.